Por que é “cada um por si” no Direito? Precisa ser assim?

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Tenho visto um fenômeno cada vez mais comum no mundo jurídico: o isolamento profissional. Advogados experientes que não ajudam os mais jovens, iniciantes que pensam que os mais experientes apenas querem escravizá-los…

O número de Advogados no Brasil (mais de um milhão) contribui para isso. Na busca de uma colocação no mercado, muitos observam os outros Advogados como adversários e concorrentes, quando poderiam ser, em muitos casos, companheiros e parceiros.

Alguns Advogados mais experientes receiam que novos profissionais entrem nesse concorrido mercado. Muitos desses Advogados são bem-sucedidos, mas dizem aos jovens que a Advocacia está muito difícil e que eles – os jovens – deveriam fazer concursos públicos.

Evidentemente, há Advogados experientes que desejam passar seus conhecimentos aos mais jovens. Normalmente, são profissionais que sofreram no início da carreira e, por esse motivo, solidarizam-se com os iniciantes, tentando facilitar a conturbada fase em que estes se encontram.

Em relação a esses Advogados bem-sucedidos e solidários, recomendo aos iniciantes que os procurem e perguntem sobre as suas trajetórias. Será uma conversa enriquecedora. Além disso, quando perguntamos sobre a trajetória de pessoas que passaram por enormes desafios, estamos, de alguma forma, reconhecendo o mérito desses vencedores.

Por outro lado, os iniciantes se sentem muito distantes dos mais experientes. Acreditam, equivocadamente, que ninguém com alguma experiência profissional teria paciência para conversar com eles e inseri-los nos ciclos profissionais.

Os iniciantes equivocam-se, principalmente, por tentarem fazer tudo sozinhos. Talvez pensem que indo sozinhos conseguirão chegar mais rápido, o que pode ser verdade, mas deveriam saber que, se foram acompanhados, chegarão mais longe.

Ao lado dessa cultura de isolamento, “ausência de ajuda” e “cada um por si” no Direito, surge uma cultura de atrapalhar o próximo, inclusive de forma antiética. Aquela tendência de tentar obter vantagem em detrimento do próximo está muito presente no Direito.

Não são poucos os Advogados que, buscando a captação antiética de clientes, conversam com acusados que estão sendo defendidos por outros Advogados e dizem frases como: “eu teria feito diferente aqui” e “ele errou nessa parte”, tentando inferiorizar o trabalho do colega para que o cliente o contrate. Abandonaram o “cada um por si” para seguirem uma vertente ainda pior: “cada um contra o outro”.

Por que agem assim? A questão profissional/financeira vem antes do aspecto humano/solidário/ético?

Precisamos de mais solidariedade e altruísmo no mundo jurídico. Quem aparentemente é nosso concorrente pode ser um parceiro profissional ou companheiro de luta pelo respeito às prerrogativas da Advocacia.

Se tentarmos nos destruir, todos sairemos destruídos dessa batalha desnecessária.

Evinis Talon é sócio-administrador e Advogado Criminalista da Talon Consultoria e Advocacia Criminal (clique aqui), professor de cursos de pós-graduação, presidente do International Center for Criminal Studies, palestrante e autor de vários livros e artigos.